Capítulo 3 – Pequenas mancadas, grandes problemas
Era tudo completa escuridão. Para todos lados que Davi olhava não havia
nada além de trevas. Mas de repente quatro olhos se abriram, dois a direita e
dois a esquerda de Davi. Os da direita tinham uma cor prateada e os da esquerda
eram vermelho sangue, e um dos olhos vermelhos tinha uma cicatriz em forma de
corte na vertical que ia de cima do olho até bem abaixo dele, e um dos olhos
prateados tinha uma tatuagem tribal ao seu redor. Havia apenas aqueles olhos e
suas marcas no meio da escuridão.
– Onde eu estou? – perguntou Davi – E quem são vocês?
Nada além do silêncio essa foi a resposta para Davi. E aos poucos outros
olhos foram começando a se abrir em meio a escuridão, olhos de várias cores,
uns pareciam amigáveis, outros simplesmente amedrontadores.
– Quem são vocês? Me respondam!
Um frio o fez acordar. Ele estava todo molhado na cama
olhou para cima e viu Samuel com um balde virado em suas mãos.
– Acordou bebê? – Disse Samuel com um tom de escárnio, rindo do susto
que Davi havia tomado – Levanta, temos muita coisa a fazer antes do seu
primeiro dia de aula. – Davi olhou para a janela ao lado da sua cama e viu que
ainda estava escuro.
– Que horas tem? – Perguntou o garoto.
– Agora deve ser umas cinco da manhã.
– Por que você me acordou a essa hora? A aula só começa sete horas.
– E você acha que eu não sei? – Samuel puxou o lençol que estava embaixo
de Davi, o que fez o garoto que cair com vontade no chão. – Tenho que te deixar mais... humano.
Davi se levantou e foi andando em direção ao banheiro, lá ele viu um
balde com água quente no chão, duas toalhas de rosto penduradas na parede e uma
tesoura, um pente de osso e uma navalha digna de uma filme de "serial killer" em cima da mesa. Ele se virou para perguntar para Samuel para que era aquilo mas o
velho já estava do lado de dentro do banheiro trancando a porta. Ele se virou e
seus óculos escuros brilhavam em um tom maléfico graças a lamparina que ali
estava. Davi se afastou lentamente dele. Samuel andou em direção a Davi, pegou
a tesoura e o pente, e continuou andando.
– Agradeça a fada azul da metalurgia, graças a ela você parecerá um
menino de verdade – Ele soltou uma gargalhada que fez eco na casa.
– Nããããããoooooo – gritou Davi.
Uma hora depois a porta se abre, Samuel sai com uma toalha pequena nas
mãos, limpando os cabelos cortados que estava em suas mãos.
– Vamos rápido, se não você vai chegar atrasado.
Davi sai do banheiro muito diferente de quando entrou, agora estava sem
barba e com o cabelo arrumado, não havia tantos pelos no braço nem no corpo.
– Por que os adolescentes humanos são assim? Tão sem pelos?
– Pergunte para sua professora de Biologia... Não, não pergunte, apenas
aceite isso. – Samuel pegou sua jaqueta da sua antiga “gangue”, os lobos
andarilhos, dois capacetes e se virou pra Davi – Seu
uniforme está em cima da sua cama, passado e limpo, junto com sua mochila que
contém tudo que você irá precisar para hoje. Hoje está frio, então pegue um dos
meus casacos, pegue o que você mais gostar e pode ficar com ele. É um presente
em comemoração do seu primeiro dia de aula.
Davi foi para o seu quarto e olhou pro uniforme. Era uma blusa cinza, da
cor de um pano de chão, com o “Logo” do estado do Rio de Janeiro e em cima do
logo o nome do colégio, Visconde de Tinguá. “Que
legal, além de não terem pelos direito, eles ainda usam esse pano de chão como
blusa, humanos.” Davi pensou. Ele a vestiu com uma calça jeans que estava
do lado da blusa, antes rasgou um pouco algumas partes da calça, como sempre
fazia com suas calças, pegou uma corrente pequena e amarrou pendurada no lado
direito da cintura, logo após colocou. Ele foi andando até a
porta e se lembrou do casaco. Foi pro quarto de Samuel e abriu o guarda-roupa,
ele olhou os casacos tentando escolher um que o agradasse, mas todos pareciam
iguais. Ele começou a procurar nos outros compartimentos do Guarda-roupa. Até
que achou uma caixa grande escrita “L & L”, curioso, ele a abriu, e lá viu
fotos dos seus pais. Ficou paralisando olhando as fotos por alguns instantes e
depois começou a ver as outras coisas que estava na caixa. De lá ele tirou um
casaco de couro negro com um marca com garras vermelhas no lado esquerdo do
peito e uma ombreira de prata no ombro direito. “Garras vermelhas e Guardiões da lua” Davi ficou admirado aquele
casaco.
– Anda logo! Você vai se atrasar! – Davi se assustou com o grito. Ele
pegou o casaco, fechou a caixa e a guardou onde estava. Ele já ia saindo quando percebeu que se o seu tio o visse com a jaqueta brigaria por
mexer nas suas coisas sem permissão, então dobrou o casaco de forma que a marca
da garras e a ombreira não ficassem visíveis.
Assim que chegou na moto do seu tio ele entrou no sidecar e falou:
– Vamos logo.
– Por que você demorou tanto? E que casaco você escolheu?
– Estava escolhendo melhor o casaco, depois eu te mostro ele. Vamos
antes que eu chegue atrasado.
Samuel olhou nos olhos de Davi com seu inseparável óculos escuro como se
estivesse desconfiado de algo mas deu partida na moto e acelerou. Por alguns
minutos eles ainda estavam dentro da floresta, passando por entre as árvores,
pois não havia estrada, nem mesmo de terra, que levasse à cabana. Depois de
aproximadamente sete minutos eles estavam na beira de uma estrada, foi a
primeira vez que Davi saiu da floresta, ele já havia chegado perto da estrada
mas nunca ousou chegar muito perto, uma vez uma criança que passou em um carro
o viu perto da estrada e gritou: “mãe, olha o mostro, olha o monstro”. Davi se
escondeu e não quis mais passar nem por perto da estrada.
Depois de quinze minutos eles chegaram no
centro do bairro de Tinguá.
– Seu colégio é aquele ali na frente.
Davi olhou pra frente e viu, um colégio público, com muros pichados e
com parte quebradas. No topo do muro havia metais retorcidos, colocados ali
para impedir que alunos fugissem. O portão era feito de grades de ferro, um pouco
retorcidas. Parecia mais um presídio do que uma escola. Samuel parou a moto em
frente ao portão, praticamente em frente ao zelador que estava de porteiro ali.
Um homem estranho, meio banguela e com uma barba mal feita e má distribuída em
seu rosto franzino e enrugado. Ele não era tão velho, era apenas acabado. Esse
homem ficou encarando os dois.
– Toma isso aqui – Samuel deu um óculos escuros – Os outros pirralhos
vão achar estranho um cara com um olho cinza e o outro vermelho.
– Ah claro! E não vão achar estranho um garoto com óculos escuros no
meio da sala de aula. As vezes me espanto com sua genialidade.
Samuel gargalhou tão alto que todos da rua ficaram olhando para eles, o
que deixou Davi constrangido.
– Boa aula moleque. – Disse Samuel já ligando a moto – E toma cuidado.
– Ok – Disse Davi. Samuel partiu de em direção a estrada e o jovem lobo
ficou olhando, petrificado vendo o tio indo embora.
Ele se virou para o portão da escola e entrou, ainda sendo encarado pelo
zelador. Atrás do portão havia uma quadra, não muito grande, com arquibancadas
de cimento de quatro andares, uma do lado esquerdo e outra do lado direito. As
traves, que um dia foram brancas, estavam enferrujadas e caindo aos pedaços. As
paredes que cercavam a escola, que um dia também foram brancas, hoje estão
encardidas e com marcas de pés e bolas. Davi se sentou em um canto afastado da
quadra e colocou sua jaqueta, ficou um pouco largo mas ele adorou.
Ele sentiu algo no bolso interno e colocou a mão para ver o que tinha ali. Era um papel
dobrado, meio amarelado, com letras que mais pareciam garranchos de médico. Ele
abriu o papel e começou a ler. Assim dizia:
“Davi, você deve ser forte. Esse papel deve ser entregue a você quando
você estiver pronto, então não culpe aquele velho por ter escondido isso de
você por tanto tempo. Um dia, mais cedo ou mais tarde, você encontrará parte da
sua família que ainda está viva...” – Davi sorriu, como ainda estivesse
esperança de ter uma família – “Não fique contente” – Davi fechou a cara –
“Assim que você conhecê-los, será para lutar até a morte, pois você não pode
existir, eles te consideram uma mancha enorme no nome do clã deles. A morte te
segue de perto, e aqueles que ficam a sua volta correm muito risco, então tome
cuidado. O que pra uns é oculto, para nós, é visível e está em todos os
lugares. Não deixe de tomar cuidado.” Assim que Davi terminou de ler o sinal tocou era hora de ir para a
sala de aula. Os pelos do corpo dele, pelo menos os que sobraram, se arrepiaram
só de pensar em entrar no colégio. Mas ele respirou fundo e foi. Colocou sua
jaqueta e guardou o papel em um bolso.
Todos os alunos estavam no pátio, conversando, revendo os velhos amigos,
alguns até já começaram a “investida” nas garotas que ali estavam, apenas Davi
estava inquieto. Poucos minutos depois uma mulher jovem, provavelmente com uns vinte e seis anos subiu em uma das arquibancadas com um microfone e uma caixa de som
pequena.
– Bom dia a todos – disse ela com um sorriso no rosto, ela tinha feições
indígenas, e um belo corpo. Parte dos garotos olhava-a com um desejo que só os
adolescentes com hormônios a flor da pele têm. – Eu sou a coordenadora Dalila,
e vou dividir as turmas pra termos o primeiro dia de aula. – e assim foi, assim
que separou as turmas fez todo aquele discurso clássico que diretores,
coordenadores e professores fazem sobre dever e direito do aluno, além de citar
as regras da escola. Davi estava quase dormindo quando um garoto da turma dele
lhe deu uma tapa no pescoço e disse:
– O anão, acorda aí, ficou batendo uma a noite toda é? – ele o grupo
dele riram, gargalharam como se fosse a brincadeira mais engraçada do mundo.
Davi apenas fitou-os com o olhar, “Bando
de hienas” pensou.
– Vocês aí! Silêncio! – Gritou o velho zelador, um homem magro e velho,
com uma feição carrancuda no rosto. Era o mesmo homem que encarou Davi na porta
do colégio. Dalila terminou de explicar e direcionou turma por turma as suas
respectivas salas.
Davi fazia parte da turma 1002, a segunda turma de primeiro ano. Ao
chegar na sala cada um foi escolhendo seus lugares e ele preferiu sentar no
final da sala, no canto direito, perto da janela. Alguns minutos depois o
garoto que havia implicado com ele entra na sala, olha pra Davi e sussurra algo
com os amigos dele, logo após isso eles começam a ir andando pro final da sala.
Assim que todos escolheram seus lugares e seus grupos Davi percebeu que naquela
sala a maior parte dos alunos tinha jeito de encrenqueiros, garotas
“patricinhas”, garotas faveladas, musculosos lutadores de uma luta qualquer,
arruaceiros e até tinha uns que pareciam drogados. Uma professora entra na sala
e escreve no quadro: “Prof.ª Jucicreide, matéria: Sociologia”. Alguns da sala
riram do nome, outros zombaram da matéria dela.
“Só pode ser brincadeira, logo
no primeiro dia vou ter aula de humanas” pensou Davi. Ele tinha uma facilidade enorme em física, química,
matemática e até em biologia, mas se havia algo que não entrava na cabeça dele
era história, geografia política e sociologia. E dali o resto da aula foi algo
monótono com a professora querendo atenção de toda a turma e ninguém dando
atenção à ela. Duas horas e meia depois
bate o sinal do intervalo. “Primeiro
tempo de sociologia, segundo e terceiro de química. Vejamos o que o resto do
dia me aguarda”. Davi abriu sua mochila pegou o lanche que estava nela e
foi para o pátio. Foi um alívio, a maioria dos lobisomens não gosta muito de
locais fechados, e Davi era um deles. Ele olhou em volta vendo vários grupos
reunidos conversando e poucos lugares para ele sentar para comer. A esquerda
dele, fora da quadra havia uma mesa quadrada de cimento com 4 cadeiras do mesmo
material, ele foi andando em direção ao local para sentar mas outro grupo chegou
primeiro. Então ele mudou de direção e sentou embaixo da árvore, na sombra.
Pegou seu sanduíche que seu tio havia feito e o suco que estava com ele e
degustou ali mesmo.
Quando o sanduíche estava quase acabando aquele grupo de desordeiros,
que havia mexido com Davi, estava indo em direção a ele. “Lá vem merda”, Davi guardou o resto de sanduíche na mochila,
terminou o suco e se levantou. Quando ele já estava de pé o líder da matilha de
hienas estava na frente dele.
– Olha quem encontramos aqui, o anão de jardim! – todas as hienas riram,
gargalharam como se estivessem vendo um filme de com´pedia besteirol – E aí tampinha,
vou te dar uma notícia, a gente não gostamos de você. – Davi sentiu uma pontada no pâncreas por causa do erro de português – Por isso, você será nosso
saco de pancada, fará nosso dever o ano todo, entre outras coisas. Tudo bem pra
você?
– Não. – Davi saiu andando em direção a sala enquanto o escarnecedor
veio correndo atrás dele.
– Não vire as costas enquanto eu estou falando babaca – veio ele
correndo com uma das mãos levantadas, pronto para dar um soco em Davi. Mas o
soco foi parado, pela mão do zelador. Mas Davi não iria levar o soco, pois
quando o zelador parou o soco, a mão de Davi já estava preparada para defender
o golpe.
– Bando de bichinhas! Aqui no colégio não é lugar para suas brigas
disputando homens. Se as moças querem se
estapear e arrancar o cabelo uma da outra que façam, mas fora do
colégio. – O chefes das “hienas” bufou e saiu andando. Quando Davi se virou pra
ir para a sala o zelador colocou a mão no ombro dele e o parou. – Moleque eu já
senti muitos cheiros, sou um lobo velho neste mundo, consigo saber quem é o que
de longe. Mas eu não conheço seu cheiro. – “Merda
ele é um lobisomem”, pensou Davi, “Eu
nem me preocupei em saber se havia lobisomens nesse colégio”. O zelador era
realmente um homem muito feio e estranho, magro, com pouco cabelo, o fios que
ainda sobravam na cabeça dele eram longos e iam até o pescoço. – Me diga, o que
é você? – O sinal bate.
– Talvez um outro dia senhor, agora vou pra minha aula.
– Você não tem pra onde correr. Um garoto que me aparece com dois
símbolos de clãs de licantropos na jaqueta não vai escapar de mim até me
explicar tudo. – “Merda os símbolos”
Davi fechou a mão com força, “lobo burro,
burro, burro, burro.” Se martirizou. – Vai lá, mais cedo ou mais tarde você
vai me contar. E toma cuidado pra não machucar o Alan, aquele moleque que
encheu seu saco. Sei que ele não conseguirá te ferir, você é estranho demais
pra isso, cuidado para não perder o controle.
Davi ficou gelado. “Me
descobriram, merda! Meu tio vai me matar! Vou deixar pra contar isso pra ele
outro dia. Por enquanto vou ter que fazer as coisas por mim mesmo. Sem coleira”.
O dia a partir dali foi chato. O sinal bateu e todos saíram da escola, Davi se
lembrou de guardar a jaqueta na mochila para que o tio não a visse. Ele saiu do
colégio e deu de cara com Samuel, bufando de raiva.
– Rapaz, aconteceu uma coisa engraçada hoje. – Disse Samuel – Eu não
senti falta de nenhuma jaqueta minha. A única que sumiu foi uma que não era
minha. Talvez você, com toda sua esperteza, consiga me explicar o que
aconteceu. – “Ferrou” foi a única
palavra que ecoou na cabeça de Davi naquele momento.
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