Capítulo
2 – Primeiro uivo, banhado em sangue.
16
outonos após o nascimento de Davi
Era um começo de noite. Ventos
fortes sopravam entre as árvores, mas na floresta densa não tinha lugar para
ventos fortes. Ali dentro eles eram apenas leves brisas.
– Cadê a comida moleque? –
um grito é escutado dentro da densa floresta de tinguá. Era Samuel, com mais cabelos brancos que antes, e mais
gordo também, mas era ele. Ele estava em frente a uma cabana de madeira, no
meio da floresta. – Será que um chihuahua não consegue nem caçar direito?
– Cala a boca seu velho
sedentário, da próxima vez vai você caçar. – Da floresta sai um jovem, com uma barba densa e cabelos longos, mas dava para ver que era jovem ainda. Sua
barba estava suja de sangue, assim como a roupa que usava, uma blusa preta
bastante surrada e uma bermuda verde escura. Ele tinha também um cordão de cruz prateado no pescoço. Ele era de estatura baixa, não devia passar de um metro e cinquenta. Ele
carregava uma vaca nas costas, ela estava morta com uma ferida no pescoço,
aparentemente uma mordida. Apesar do peso da vaca ele a carregava facilmente,
como se carrega um saco de batata.
– Vamos ver o que temos hoje
– Samuel se aproximou da vaca e começou a avaliar – Muito bom. Mordida direta
na jugular. Morte rápida. Só que da próxima vez traga um animal maior, essa
vaquinha está muito miúda pro meu gosto. – Samuel soltou uma gargalhada que
ecoou na floresta. E o jovem não gostou nada da risada. – Brincadeira. Você está
aprendendo muito bem, Davi. Pegue o avental e vamos ajeitar a janta.
– Eu não vou colocar aquele
avental de novo.
– Avental é bom pra não
sujar as roupas, e eu sempre achei que a cor do avental combinava com seus olhos
– Samuel deu uma gargalhada – Mas já que não é o seu estilo, você quem sabe.
Samuel entrou na cabana e
Davi ficou do lado de fora, ele colocou a vaca em uma mesa de madeira grande
que ficava encostada na parede da cabana e começou a cortar a vaca em pedaços.
Depois de certo tempo Davi ouviu um barulho na floresta e olhou na direção de onde vinha. Ele enxergou ao longe uma mulher correndo de um homem.
– Merda... – Ele fincou a
faca de açougueiro na tábua aonde cortava. Limpou a mão com um pano que estava
no canto da mesa, não queria que o cheiro de sangue fosse forte demais. Ele olhou pra
blusa e viu que estava cheia de sangue e olhou pro avental que estava pendurado
perto da mesa. – Por que aquele velho sempre tem razão? – Ele arrancou a blusa
e foi correndo na direção deles.
Quanto mais se aproximava do
homem mais sentia um cheiro estranho, um cheiro de lobo. A ideia de aquele ser
um licantropo veio a mente de Davi, mas nunca havia visto ou sentido o cheiro
de outro licantropo a não ser o de seu tio, então continuou a correr. Quando
chegou perto viu a mulher no chão de costas para a árvore, ela chorava e
gritava muito enquanto um homem rasgava a roupa dela. Davi ficou com muita
raiva e foi se aproximando devagar.
– Ei! Você! Tire suas patas
da moça! – Gritou ele assim que parou a uma distância segura. Assim
que ele terminou de falar o homem virou o rosto para Davi que se assustou. O
homem tinha caninos avantajados e olhos vermelhos penetrantes. “Um Garra Sangrenta!” pensou Davi.
– Moleque isso aqui é coisa
de adulto, vai pra casa bater uma bronha. – Disse com uma voz rouca, ele tinha
costeletas bem avantajadas e orelhas meio pontudas. A mulher não parava de
gritar, o homem se voltou para a mulher e continuou da onde havia parado.
– Ah cara... – Davi não
conseguiu ficar ali, parado. Foi para mais perto do cara e colocou a mão no
ombro esquerdo dele. – Para com essa... – Antes que ele terminasse de falar o
homem se virou rapidamente o atacando com a parte de trás do braço. Davi se
agachou para esquivar do golpe e foi para trás dele. O homem ficou irritado,
suas garras cresceram e seu pelos também, mas não muito. Ele também ficou mais
troncudo, de forma que sua blusa de marca ficasse estufada. Ele foi para cima
de Davi, que esquivou mais uma vez. Isso irritou ainda mais o licantropo. Davi
então decidiu lutar de igual para igual. Não que isso fizesse muita diferença
em sua fisionomia, mas seus pelos cresceram um pouco, as garras e presas também. E
seus olhos tiveram suas cores realçadas, o vermelho e o cinza.
– Como assim? Você também é
um de nós? Você não tem cheiro de lobisomem. O que é você?
– Isso não interessa.
– Impossível! Eu teria
sentido seu cheiro de longe. Mas você não tem cheiro de nenhuma tribo que eu
conheça. O que... O que é você seu merdinha?!
Davi soltou um riso canto de
boca.
– Só sabe latir totó? – E o
insulto foi super efetivo.
– Filho da... – o homem foi
correndo pra cima de Davi, e ali eles brigaram. Foi um luta rápida, bastou
apenas uns sete golpes para Davi deixar o homem no chinelo. Ele tentou correr
para fugir, mas Davi o pegou pelas pernas e o jogou em uma árvore. O homem se
contorcia no chão. Davi se virou para a mulher e disse:
– Corre, procure uma
igreja e agradeça a Deus. Eu não te salvei, foi ele que te livrou desse
psicopata. Outra coisa, você nunca me viu. Entendeu? – Ela estava com um olhar assustado,
as lágrimas ainda caíam de seu rosto quando afirmou com a cabeça. Só agora que
Davi percebeu que aquela mulher, na verdade, era uma garota de aproximadamente
quatorze ou quinze anos.
– Mu... Mu... Muito obrigado
– disse ela chorosa.
– Agora vaza! – Disse Davi, como um verdadeiro cavalheiro.
Davi voltou a atenção para o
homem e Samuel estava ali, fincando um punhal no coração do licantropo. A
garota não viu a cena, pois já havia saído correndo.
– Mas eu não terminei.
Samuel foi andando na
direção de Davi e, antes mesmo que o jovem fizesse algo, deu um baita soco na
cara dele.
– Primeiro: você tem quer
ter mais cautela, você se mostrou para uma humana. – Davi levou outro soco –
Segundo: você lutou contra um lobisomem, sorte sua que ele era fraco. – Davi
levou outro soco – Terceiro: ele é um Garra Sangrenta, se ele tivesse fugido
você estaria ferrado, e você sabe muito bem o porquê. – Samuel pegou Davi pelo
pescoço e o levantou – Olha aqui, você ainda é um filhotinho seu merda! Mal desmamou e j´[a quer lutar. Não faça nada idiota sem minha permissão. – Samuel largou o Davi que
caiu no chão. – Vá para a cabana e volte a cortar a carne.
– Mas...
– Vaza! – gritou Samuel. Davi
abaixou a cabeça e foi em direção à cabana.
A caminhada para a cabana
parecia ter levado horas. Davi foi pensando e se perguntando o porque da reação
do tio. Ele chegou à tábua e continuou de onde havia parado. E olhou pro
avental.
– Coloca o aventou, blá blá blá – falou
ele pensando no seu tio. Mesmo relutante ele colocou o avental. E continuou a
cortar a carne.
“Eu
não entendi, aquele cara era muito fraco. Nem era um Naor completo, aquele
merdinha não era páreo”. Pensou Davi. “Naor não, Uzi. Naor é a ultima fase dos lobisomens, Uzi que é a fase
intermediária. Nem em um Uzi completo ele conseguiu se transformar”. Davi
terminou de cortar a carne, separou o que ele e seu tio iriam comer e guardou o
resto, que só para constar era apenas a metade da vaca. Depois de guardar
o que havia sobrado ele pegou a parte que tinha separado e começou a cozinhar
dentro da cabana.
Depois de uma hora que Davi
havia terminado de cozinhar Samuel chega em casa e bate a porta com força.
– A comida está na mesa –
Disse Davi.
– Tô sem fome – ele olhou
pras costelas que estavam na mesa quase babando – Vou comer um pedaço, mas
ainda estou sem fome. – disse ele pegando um pedaço generoso de carne.
– Tio, por que você ficou
tão irritado?
– Você se meteu com um Garra
Sangrenta, e isso não é legal. – ele abocanhou mais um pedaço de carne – Você
poderia perder muito com isso moleque. – Disse de boca cheia.
– Mas ele não era nem um
Zev...
– Uzi, você quis dizer Uzi.
Lupo é a forma de lobo, Zev é a forma de lobo gigante. Uzi é a forma humana
semi transformada e Naor é a última forma.
– É, foi mal. Ele era muito
fraco, dava pra sentir isso no seu cheiro.
– Não julgue um lobo pelo
seu cheiro, muitas vezes você vai se dar mal se fizer isso. Outra coisa, se
continuar vivendo aqui na cabana, isolado, vai continuar assim, animalesco,
então eu tomei uma decisão séria.
– Decisão?
– Sim. Você precisa se
misturar com os seres humanos para ser mais... – Samuel olhou para Davi de cima
a baixo, tentando buscar uma palavra que se encaixasse no que ele queria dizer
– Mais humano.
– Para de enrolar, fala
logo, o que você fez.
– Bom, eu te matriculei em
um colégio estadual no centro do bairro. – De curioso Davi ficou assustado – E
suas aulas começam amanhã.
– A-au-au-aulas? Com outras
pe-pessoas?
– Sim. Au-au-aulas com
outras pe-pessoas. Vai dormir por que vai ter que acordar cedo amanhã. Boa
noite. – E assim eles foram dormir, quero dizer, Samuel foi dormir. Davi ficou
acordado ainda pensando no que iria acontecer ao amanhecer. Ele nunca havia convivido
com ninguém além do seu tio. E isso seria um desafio para ele, o que para uns é
normal, para um lobisomem rabugento seria um problema maior do que ele
imaginava.
Em
outro canto da floresta.
– Cadê aquele pedófilo
desgraçado? – disse um bêbado careca de barba castanha que estava escorado em
uma árvore. Ele tinha uma cicatriz em forma de quatro garras que cruzavam na
diagonal o seu rosto, a cicatriz ia de orelha a orelha.
– Não faço a mínima ideia. –
disse um cara logo atrás dele. Ele era magro, tinha um tapa-olho no lado
direito do rosto e fumava um cigarro caseiro fedorento. – O Genival fica nessa
coisa de estupros e babaquices. Ele não tem honra.
– E qual de nós tem? – os
dois se olharam e gargalharam alto, as gargalhadas chegaram a fazer eco na
floresta.
– Olha isso aqui. – o bêbado
se agachou e tocou o chão. O chão estava molhado, e tinha uma pegada. – É o
cheiro do Genival. Tentaram esconder, mas nada passa despercebido desse nariz
movido á álcool.
– Vamos voltar e dizer pro
líder. Algo aconteceu com o cara e eu não sinto cheiro de outro lobisomem.
Espera aí. – o homem magro parou e começou a farejar o ar. – Eu conheço esse
cheiro.
– Eu também! Eu também! –
disse o homem careca com raiva – O encontramos. É impossível esquecer o cheiro
desse desgraçado.
– O Cavaleiro Andarilho, ele
está por aqui. Vamos! Rápido! Vamos avisar ao “Olhos de Dragão”, ele vai adorar
saber disso. – os dois homens se transformaram em Lupo e começaram a correr por
entre as árvores. Ao longe se escutava uivos, uivos de felicidade.
O problema era de quem era
aquela felicidade.
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