quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Vira-lata - Cap 2


Capítulo 2 – Primeiro uivo, banhado em sangue.

16 outonos após o nascimento de Davi
Era um começo de noite. Ventos fortes sopravam entre as árvores, mas na floresta densa não tinha lugar para ventos fortes. Ali dentro eles eram apenas leves brisas.

– Cadê a comida moleque? – um grito é escutado dentro da densa floresta de tinguá. Era Samuel, com mais cabelos brancos que antes, e mais gordo também, mas era ele. Ele estava em frente a uma cabana de madeira, no meio da floresta. – Será que um chihuahua não consegue nem caçar direito?

– Cala a boca seu velho sedentário, da próxima vez vai você caçar. – Da floresta sai um jovem, com uma barba densa e cabelos longos, mas dava para ver que era jovem ainda. Sua barba estava suja de sangue, assim como a roupa que usava, uma blusa preta bastante surrada e uma bermuda verde escura. Ele tinha também um cordão de cruz prateado no pescoço. Ele era de estatura baixa, não devia passar de um metro e cinquenta. Ele carregava uma vaca nas costas, ela estava morta com uma ferida no pescoço, aparentemente uma mordida. Apesar do peso da vaca ele a carregava facilmente, como se carrega um saco de batata.

– Vamos ver o que temos hoje – Samuel se aproximou da vaca e começou a avaliar – Muito bom. Mordida direta na jugular. Morte rápida. Só que da próxima vez traga um animal maior, essa vaquinha está muito miúda pro meu gosto. – Samuel soltou uma gargalhada que ecoou na floresta. E o jovem não gostou nada da risada. – Brincadeira. Você está aprendendo muito bem, Davi. Pegue o avental e vamos ajeitar a janta.

– Eu não vou colocar aquele avental de novo.

– Avental é bom pra não sujar as roupas, e eu sempre achei que a cor do avental combinava com seus olhos – Samuel deu uma gargalhada – Mas já que não é o seu estilo, você quem sabe.

Samuel entrou na cabana e Davi ficou do lado de fora, ele colocou a vaca em uma mesa de madeira grande que ficava encostada na parede da cabana e começou a cortar a vaca em pedaços. Depois de certo tempo Davi ouviu um barulho na floresta e olhou na direção de onde vinha. Ele enxergou ao longe uma mulher correndo de um homem.

– Merda... – Ele fincou a faca de açougueiro na tábua aonde cortava. Limpou a mão com um pano que estava no canto da mesa, não queria que o cheiro de sangue fosse forte demais. Ele olhou pra blusa e viu que estava cheia de sangue e olhou pro avental que estava pendurado perto da mesa. – Por que aquele velho sempre tem razão? – Ele arrancou a blusa e foi correndo na direção deles.

Quanto mais se aproximava do homem mais sentia um cheiro estranho, um cheiro de lobo. A ideia de aquele ser um licantropo veio a mente de Davi, mas nunca havia visto ou sentido o cheiro de outro licantropo a não ser o de seu tio, então continuou a correr. Quando chegou perto viu a mulher no chão de costas para a árvore, ela chorava e gritava muito enquanto um homem rasgava a roupa dela. Davi ficou com muita raiva e foi se aproximando devagar.

– Ei! Você! Tire suas patas da moça! – Gritou ele assim que parou a uma distância segura. Assim que ele terminou de falar o homem virou o rosto para Davi que se assustou. O homem tinha caninos avantajados e olhos vermelhos penetrantes. “Um Garra Sangrenta!” pensou Davi.

– Moleque isso aqui é coisa de adulto, vai pra casa bater uma bronha. – Disse com uma voz rouca, ele tinha costeletas bem avantajadas e orelhas meio pontudas. A mulher não parava de gritar, o homem se voltou para a mulher e continuou da onde havia parado.

– Ah cara... – Davi não conseguiu ficar ali, parado. Foi para mais perto do cara e colocou a mão no ombro esquerdo dele. – Para com essa... – Antes que ele terminasse de falar o homem se virou rapidamente o atacando com a parte de trás do braço. Davi se agachou para esquivar do golpe e foi para trás dele. O homem ficou irritado, suas garras cresceram e seu pelos também, mas não muito. Ele também ficou mais troncudo, de forma que sua blusa de marca ficasse estufada. Ele foi para cima de Davi, que esquivou mais uma vez. Isso irritou ainda mais o licantropo. Davi então decidiu lutar de igual para igual. Não que isso fizesse muita diferença em sua fisionomia, mas seus pelos cresceram um pouco, as garras e presas também. E seus olhos tiveram suas cores realçadas, o vermelho e o cinza.

– Como assim? Você também é um de nós? Você não tem cheiro de lobisomem. O que é você?

– Isso não interessa.

– Impossível! Eu teria sentido seu cheiro de longe. Mas você não tem cheiro de nenhuma tribo que eu conheça. O que... O que é você seu merdinha?!

Davi soltou um riso canto de boca.

– Só sabe latir totó? – E o insulto foi super efetivo.

– Filho da... – o homem foi correndo pra cima de Davi, e ali eles brigaram. Foi um luta rápida, bastou apenas uns sete golpes para Davi deixar o homem no chinelo. Ele tentou correr para fugir, mas Davi o pegou pelas pernas e o jogou em uma árvore. O homem se contorcia no chão. Davi se virou para a mulher e disse:

– Corre, procure uma igreja e agradeça a Deus. Eu não te salvei, foi ele que te livrou desse psicopata. Outra coisa, você nunca me viu. Entendeu? – Ela estava com um olhar assustado, as lágrimas ainda caíam de seu rosto quando afirmou com a cabeça. Só agora que Davi percebeu que aquela mulher, na verdade, era uma garota de aproximadamente quatorze ou quinze anos.

– Mu... Mu... Muito obrigado – disse ela chorosa.

– Agora vaza! – Disse Davi, como um verdadeiro cavalheiro.

Davi voltou a atenção para o homem e Samuel estava ali, fincando um punhal no coração do licantropo. A garota não viu a cena, pois já havia saído correndo.

– Mas eu não terminei.

Samuel foi andando na direção de Davi e, antes mesmo que o jovem fizesse algo, deu um baita soco na cara dele.

– Primeiro: você tem quer ter mais cautela, você se mostrou para uma humana. – Davi levou outro soco – Segundo: você lutou contra um lobisomem, sorte sua que ele era fraco. – Davi levou outro soco – Terceiro: ele é um Garra Sangrenta, se ele tivesse fugido você estaria ferrado, e você sabe muito bem o porquê. – Samuel pegou Davi pelo pescoço e o levantou – Olha aqui, você ainda é um filhotinho seu merda! Mal desmamou e j´[a quer lutar. Não faça nada idiota sem minha permissão. – Samuel largou o Davi que caiu no chão. – Vá para a cabana e volte a cortar a carne.

– Mas...

– Vaza! – gritou Samuel. Davi abaixou a cabeça e foi em direção à cabana.

A caminhada para a cabana parecia ter levado horas. Davi foi pensando e se perguntando o porque da reação do tio. Ele chegou à tábua e continuou de onde havia parado. E olhou pro avental.

– Coloca o aventou, blá blá blá – falou ele pensando no seu tio. Mesmo relutante ele colocou o avental. E continuou a cortar a carne.

“Eu não entendi, aquele cara era muito fraco. Nem era um Naor completo, aquele merdinha não era páreo”. Pensou Davi. “Naor não, Uzi. Naor é a ultima fase dos lobisomens, Uzi que é a fase intermediária. Nem em um Uzi completo ele conseguiu se transformar”. Davi terminou de cortar a carne, separou o que ele e seu tio iriam comer e guardou o resto, que só para constar era apenas a metade da vaca. Depois de guardar o que havia sobrado ele pegou a parte que tinha separado e começou a cozinhar dentro da cabana.

Depois de uma hora que Davi havia terminado de cozinhar Samuel chega em casa e bate a porta com força.

– A comida está na mesa – Disse Davi.

– Tô sem fome – ele olhou pras costelas que estavam na mesa quase babando – Vou comer um pedaço, mas ainda estou sem fome. – disse ele pegando um pedaço generoso de carne.

– Tio, por que você ficou tão irritado?

– Você se meteu com um Garra Sangrenta, e isso não é legal. – ele abocanhou mais um pedaço de carne – Você poderia perder muito com isso moleque. – Disse de boca cheia.

– Mas ele não era nem um Zev...

– Uzi, você quis dizer Uzi. Lupo é a forma de lobo, Zev é a forma de lobo gigante. Uzi é a forma humana semi transformada e Naor é a última forma.

– É, foi mal. Ele era muito fraco, dava pra sentir isso no seu cheiro.

– Não julgue um lobo pelo seu cheiro, muitas vezes você vai se dar mal se fizer isso. Outra coisa, se continuar vivendo aqui na cabana, isolado, vai continuar assim, animalesco, então eu tomei uma decisão séria.

– Decisão?

– Sim. Você precisa se misturar com os seres humanos para ser mais... – Samuel olhou para Davi de cima a baixo, tentando buscar uma palavra que se encaixasse no que ele queria dizer – Mais humano.

– Para de enrolar, fala logo, o que você fez.

– Bom, eu te matriculei em um colégio estadual no centro do bairro. – De curioso Davi ficou assustado – E suas aulas começam amanhã.

– A-au-au-aulas? Com outras pe-pessoas?

– Sim. Au-au-aulas com outras pe-pessoas. Vai dormir por que vai ter que acordar cedo amanhã. Boa noite. – E assim eles foram dormir, quero dizer, Samuel foi dormir. Davi ficou acordado ainda pensando no que iria acontecer ao amanhecer. Ele nunca havia convivido com ninguém além do seu tio. E isso seria um desafio para ele, o que para uns é normal, para um lobisomem rabugento seria um problema maior do que ele imaginava.

Em outro canto da floresta.
– Cadê aquele pedófilo desgraçado? – disse um bêbado careca de barba castanha que estava escorado em uma árvore. Ele tinha uma cicatriz em forma de quatro garras que cruzavam na diagonal o seu rosto, a cicatriz ia de orelha a orelha.

– Não faço a mínima ideia. – disse um cara logo atrás dele. Ele era magro, tinha um tapa-olho no lado direito do rosto e fumava um cigarro caseiro fedorento. – O Genival fica nessa coisa de estupros e babaquices. Ele não tem honra.

– E qual de nós tem? – os dois se olharam e gargalharam alto, as gargalhadas chegaram a fazer eco na floresta.

– Olha isso aqui. – o bêbado se agachou e tocou o chão. O chão estava molhado, e tinha uma pegada. – É o cheiro do Genival. Tentaram esconder, mas nada passa despercebido desse nariz movido á álcool.

– Vamos voltar e dizer pro líder. Algo aconteceu com o cara e eu não sinto cheiro de outro lobisomem. Espera aí. – o homem magro parou e começou a farejar o ar. – Eu conheço esse cheiro.

– Eu também! Eu também! – disse o homem careca com raiva – O encontramos. É impossível esquecer o cheiro desse desgraçado.

– O Cavaleiro Andarilho, ele está por aqui. Vamos! Rápido! Vamos avisar ao “Olhos de Dragão”, ele vai adorar saber disso. – os dois homens se transformaram em Lupo e começaram a correr por entre as árvores. Ao longe se escutava uivos, uivos de felicidade.

O problema era de quem era aquela felicidade.

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